luiza tojer

O PODER EM VOCÊ

 

 

Para Luiza Tojer a zona de "desconforto" é quase como uma prisão, por isso falar sobre a sua história, dividir os traumas e acontecimentos de sua vida, foram extremamente importantes para o seu processo de libertação.

 

Quando Luiza criou o projeto “The Power In You” seu objetivo era proporcionar uma escuta de qualidade para mulheres que, assim como ela, sofreram com a violência de gênero em suas vidas,  respeitá-las e levar informações sobre como acolher de forma saudável uma mulher que busca ajuda ou quer apenas desabafar.

 

O abuso de Luiza começou muito cedo.

 

“Um dia eu percebi que estava errado, mas eu fiquei durante um bom tempo vivendo aquela situação, mesmo sabendo que estava errado, foram anos e eu só me dei conta por volta dos 8 ou 9 anos de idade acho. 

 

Eu lembro que eu era muito nova,  eu lembro de algumas coisas que aconteceram, mas eu praticamente apaguei tudo da minha cabeça. Eu lembro da conversa que eu tive com a minha tia e o meu tio, quando eu decidi falar, pois eu sabia que alguma coisa estava errada. Lembro que estávamos na porta da sala e eu virei para minha tia e o meu tio, na frente dele e falei e contei o que meu tio fazia comigo. “ 

 

Ao dividir o que tinha acontecido com sua tia, na frente de seu tio, Luiza foi chamada de louca e ao ver o tio negando a situação, saiu de lá foi contar para os seus pais.

 

“Eu lembro que eu desci e contei para os meus pais, mas eu não lembro de nada da conversa,eu lembro, deles não terem acreditado em mim. Eram as pessoas que eu mais confiava, que eu tinha o maior laço e eu ainda era uma criança, então foi muito difícil. Crescer dentro de casa, e ter que conviver com meu tio na família, querendo ou não, foi muito difícil. Acho que o laço do que era confiança pra mim foi quebrado naquele momento.

E meu tio era “o cara” da criançada, né,então para não me sentir excluída eu  continuava a sair com ele mesmo assim pois era ele e mais um monte de outras crianças. 

Mas foi na adolescência que eu parei de falar com ele”. 

 

Foi ao crescer que Luiza entendeu que não tinha apenas sido abusada, ela havia sido calada e fez com que a confiança em sua família e em todas as pessoas fosse abalada como um todo. Era difícil entender a necessidade de manter o “nome da família” e evitar escândalos, mas o silêncio trouxe uma dor tão pesada quanto a do abuso sofrido.

Foi em meio a uma reunião familiar, quando seu tio havia trazido seus cachorros para a festa na sua casa sem permissão que Luiza perdeu a paciência e desabafou.

 

“Os cachorros dele foram pra cima do meu cachorro e ele ficava rindo, da mesma forma que ele ficava rindo para mim. Como ele sempre fez, ele sempre gostou de desestabilizar a família e depois ficava rindo. 

 Na hora que eu o vi dando risada eu botei tudo para fora, eu peguei a cabeça dele e bati na parede, e falei tudo. 

 Foi aí que caiu a ficha do meu pai de que aquilo havia sido real, e aí virou uma briga de família. Foi quando meu pai virou o bicho, eu nunca tinha visto meu pai daquele jeito. Minha mãe ficou perdida, meu pai ficou muito bravo e todos foram embora”.

 

Apesar da densidade daquele momento, para Luiza aquela briga teve um significado diferente.

 

“Acho que foi o melhor dia da minha vida. Parece que eu tinha tirado o peso de duas Luizas de dentro de mim, porque eu cresci me sentindo tão sozinha, eu não tinha vontade de conversar com a minha mãe e com meu pai sobre nada, eu não confiava em ninguém para conversar, então todas as dificuldades que eu passei eu não tive com quem conversar.

 Quando eu contei para uma amiga, pela primeira vez, a Mariana, eu já estava na faculdade, eu já tinha mais de 20 anos, e só contei para ela pois eu confiava muito nela,  foram anos em silêncio e naquele dia eu já me senti muito mais leve.” 

 

“Meu pai sentou comigo e teve uma conversa depois do que aconteceu. Eu sempre culpei tanto eles, mas depois que eu sentei e conversei com eles aquele dia, eu vi o quanto eles sentiam de não terem acreditado em mim. Eu pude ser sincera e falar como me senti durante todos esses anos em silêncio. É louco isso porque eu os amo, mas não confiava neles, porque naquele momento, eu como uma criança, eu precisava ser ouvida e não fui. Eles me pediram desculpas e depois dessa conversa que eu tive com eles passou e meu relacionamento com meus pais mudou completamente.”

 

Hoje eu sinto que posso ter conversas sinceras e honestas com eles e meu pai virou meu maior conselheiro de vida. 

 

Para Luiza, as consequências do abuso vivido foram além da área emocional, tendo reflexos neurológicos, como na área de aprendizado.

 

“Eu não sabia que esses traumas podiam me afetar neurologicamente. Eu nunca consegui ler um livro, eu sempre tive muita dificuldade de aprendizagem, a vida inteira fui chamada de burra e eu só fui descobrir recentemente que isso acontecia por causa de traumas que sofremos na infância. 

Depois eu acabei virando professora, e eu tive o entendimento de como o professor não consegue olhar para a criança, não consegue ter um olhar único para cada criança.

Eu fui fazer um estágio e me apaixonei pela profissão justamente por conseguir olhar cada ser humano, cada criança de um jeito diferente.

Porque na sala de aula todos são tratados da mesma forma, sem levar em consideração que cada criança é um ser único,  a história daquela criança e quem elas são e como cada uma delas pensa. 

Eu demoro muito mais tempo para aprender. Eu quase desisti da fotografia porque eu não conseguia entender os números e as pessoas sempre me falaram que era culpa minha, porque eu não estudava, porque eu não me dedicava. 

Eu cresci pensando que eu era muito burra, e na verdade eu não sou, minha cabeça só funciona de um jeito diferente, depois que eu descobri isso foi libertador. E A CULPA NÃO É MINHA."

Durante um relacionamento, um dos poucos que Luiza teve em sua vida, a fotógrafa reconheceu as dificuldades que tinha para se envolver com outras pessoas, foi quando seu pai a encorajou a começar a terapia.

 

“Eu não me entendia, não me conhecia, não sabia por que eu estava fazendo aquilo, eu tinha medo de confiar em alguém , de gostar e de me relacionar e isso afetava meu relacionamento. E foi quando meu pai disse que pagaria pela minha terapia, eu fui. 

Foi a melhor coisa que eu poderia ter feito. Foi libertador ter autoconhecimento, e saber que não teria um final, porque a terapia nunca acaba né. Foi então que me veio o entendimento de que eu fui sofri diversos traumas devido á todas as consequências desses abusos durante anos que sofri que eu parei de questionar o porquê aquilo tinha acontecido comigo”. 

 

Foi a coragem de Luiza para falar sobre o que aconteceu que revolucionou a sua família. 

 

“Foi tão bom ter colocado isso para fora e eu sei que eu sou outra pessoa, até mesmo o fato de fazer esse projeto. O meu maior objetivo dentro desse projeto é que mulheres tenham coragem de sair dessa zona de sofrimento”.

 

Para Luiza, mulher nenhuma merece ficar em silêncio durante tanto tempo, sem procurar ajuda, sem entender.

 

“É o que eu falo para todo mundo: a gente não vai apagar isso da gente, não tem como. A gente não tem como fazer essa escolha. Vamos carregar as consequências disso para o resto da vida, mas a gente pode fazer algumas escolhas ao longo do caminho para viver de um jeito melhor”. 

 

A terapia foi uma ferramenta chave para Luiza,  conseguir falar com normalidade sobre o abuso que sofreu, e enquanto pessoas ainda vêem o assunto como tabu, uma das missões da fotógrafa é fazer com que as mulheres quebrem o silêncio como parte do seu autocuidado.

 

A vida inteira eu senti vergonha daquilo, mas eu não tinha que sentir vergonha. Eu fui só uma pessoa que estava ali, naquela situação, como tantas outras. Depois que eu falei sobre isso abertamente, várias pessoas chegaram até mim para contar os abusos que elas sofreram. Mulheres que sofreram abuso enquanto crianças, como eu, mulheres que sofriam violência doméstica, relacionamentos abusivos, todas essas mulheres se sentiam confortável para chegar e conversar comigo.  Eu até cheguei a abrigar algumas mulheres na minha casa e via o descaso e a falta de compaixão que as pessoas tinham com essas mulheres. E é algo tão delicado, mas é mais comum do que imaginamos.” 

Foi em um evento da Empowher New York, plataforma da bailarina e ativista Ingrid Silva, que Luiza percebeu a fragilidade desse assunto e foi na frente de 80 pessoas que ela resolveu falar em público, para pessoas que não conhecia pela primeira vez.

 

“Deixaram o microfone aberto ao final do evento e eu peguei. Meu coração parecia que ia sair pela boca, eu tremia muito, achava que não iria conseguir chegar até o microfone,  mas eu precisava falar naquele dia, eu pensava: eu preciso falar agora. Eu via mulheres se sentindo tão inseguras diante da sociedade, e senti que compartihar a minha história iria de alguma forma ajudá-las.

Então eu falei:  A única pessoa que faz você acreditar em você é você mesma. Eu sempre fui questionada sobre as minhas escolhas, como quando decidi virar professora, todos me questionaram, e depois de um tempo decidi abrir a minha escola no Brasil, e mais uma vez todos me questionaram e achavam que eu estava louca, mas no primeiro dia eu estava pagando as contas já. Você não precisa de outra pessoa para falar que você é capaz, você tem que acreditar na sua capacidade e a partir do momento que você acredita na sua capacidade, a gente realiza um monte de coisas.

E contei sobre a minha experiência com o abuso e todo silêncio.

 

“Mesmo com todas as dificuldades eu consegui de novo, eu me tirei dessa posição de “coitadinha”, que é aquele olhar que a pessoa faz para você. 

Não! Eu sou foda para caralho, porque eu passei por tudo isso e hoje eu estou aqui, fazendo a minha vida e realizando os meus sonhos”.

Ao falar sobre o porquê decidiu ser professora, Luiza conta que tinha vontade de proteger todas as crianças do mundo, para que elas não passassem pelo que ela passou.

  

Luiza hoje carrega a força e a certeza de que ela pode realizar qualquer coisa que quiser, tendo como prioridade sempre o seu autocuidado, se cuidando, se alimentando bem, sem se julgar e evoluindo em seu caminho de cura e auto amor.

 

The Power In You, é isso. É você saber o poder que existe dentro de você porque todo mundo tem isso, todo mundo carrega esse poder, mas às vezes ele fica escondido ou você não sabe que existe porque ainda não deu oportunidade para esse poder aparecer. Eu acredito que contar os relatos dessas mulheres, que estão abertas a compartilhar suas histórias, mostra que mesmo com os traumas vividos, elas conseguiram encontrar o poder dentro delas, a força e hoje estão conquistando as coisas delas”. 

Para Luiza, o momento em que a mulher se descobre é tão lindo. As mulheres que realmente sabem o poder que existe dentro delas realizam grandes coisas e sabem que tudo é possível. E que um trauma não têm a capacidade de destruir a sua vida ou os seus sonhos.

"E a fotografia carrega um poder incrível, onde através do meu trabalho eu faço essa mulher se enxergar e se fazer enxergar dentro de uma sociedade que nos silencia a todo momento. "

 

“Eu cheguei a um ponto da minha vida que eu gostaria que as mulheres que passaram por qualquer tipo de violência se sintam do jeito que eu me sinto hoje. A gente não vai apagar o que aconteceu, a gente vai carregar isso dentro da gente, mas eu acho que a maior luta dentro de tudo foi chegar a um ponto onde eu estou orgulhosa da pessoa que eu sou, me amando completamente e eu me sinto feliz com que eu sou”.

 

 

Que o poder em você, e em todos nós, brilhe depois de acompanhar a história dessas cinco mulheres maravilhosas que, apesar de todos os traumas e violências sofridos, hoje buscam a sua melhor versão, fazendo com que a força da mulher seja reconhecida em qualquer lugar do mundo.

 

Esse é “The Power In You”. 

Luiza co-criadora do projeto The Power in You, fotógrafa,  e responsável por todos os ensaios realizados neste projeto, com exceção do dela realizado pela Nicole Batista.
Hoje reside em São Paulo, Brasil e trabalha como fotógrafa.

Caso tenha interesse em conhecer mais sobre seu trabalho:
 

Site: www.luizatojer.com
 

https://www.instagram.com/luizatojer/
 

Também tem um projeto no Instagram chamado :
Women Self Love Corona

https://www.instagram.com/womenselflovecorona/

"Funded by a grant from the NYC & Company Foundation".

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