Nicole batista

O PODER DO CORPO FEMININO

Nicole Oliveira Batista foi criada pelos pais e morava em família com suas duas irmãs, quando aos oito anos acompanhou de perto a separação dos pais.

Com um histórico de agressividade, o pai de Nicole foi proibido pela justiça de chegar perto de suas filhas e por mais de 12 anos não teve contato algum com Nicole.

“Minha mãe ficou em uma missão de arrumar um namorado rico para ter dinheiro depois de ter terminado o relacionamento com meu pai porque ele tinha perdido o emprego”.

 

Com a preocupação de buscar um novo relacionamento, a mãe de Nicole a deixava na casa de seus tios no final de semana, rotina que aconteceu dos 8 aos 15 anos de idade.

 

“Eu não lembro como começou, se foi abuso ou estupro, mas a primeira memória que eu lembro do meu tio me tocando foi no natal. O primeiro natal que eu passei fora de casa. Quando eu voltei para casa e contei para a minha mãe, ela me culpou. Ela disse que meu comportamento causava isso, mas depois ela me perguntou se eu tinha certeza que era abuso, ou se não era um carinho normal, que eu não entendia por que tinha ficado um tempo sem pai”. 

Apesar da pouca idade, Nicole sabia que aquele não era um carinho normal e sabia que a mãe estava errada, mas essa conversa e falta de compreensão materna fez com que a menina virasse uma filha rebelde. A memória das tentativas de justifica e explicar para mãe por que aquilo era errado ficaram marcadas na memória.

 

“Eu lembro muito mais da conversa com a minha mãe do que dos abusos que eu passei. Eu não conseguia ser rebelde com o meu tio, mas eu era rebelde com a minha mãe, eu tinha raiva dela não ter feito nada”.

 

Foram 7 anos indo para casa do tio e buscando não pensar no que acontecia, mas com o passar do tempo Nicole foi processando os acontecimentos. 

 

“Meu tio era o tio legal das crianças, que jogava bola, cozinhava, tocava violão, cuidava de crianças de outras famílias também, então aquilo me revoltava. Toda vez que minha tia saía de casa abusos aconteciam.

Nicole tem na memória o último abuso que sofreu. A menina lembra de ver a mãe e a tia saindo de casa e, como sempre, o comando foi para que ela ficasse em casa com o tio.

Eu lembro que eu falei – não, não, eu vou para igreja com você e ela falou para eu ficar porque ele precisava de mim. Foi a última vez eu fui abusada. Depois disso eu pedi ajuda para a minha irmã, contei para ela que eu estava sendo abusada e depois de uma briga que ela teve com a minha mãe eu nunca mais voltei para o meu tio”. 

 

Ao lembrar da situação com sua tia, Nicole acredita que de alguma forma sua tia sabia o que acontecia, mas como era muito dependente de seu tio, não fazia nada.

“Eu acho que as pessoas fingem que não sabem, elas não querem ver, porque era nítido”.

O abuso acontecia sempre em um momento que não tinha ninguém em casa. Nicole conta que o tio dava recompensas, como leite condensado, antes do abuso.

 

Para Nicole essa falta de reação já aconteceu em outras situações de abusos que ela sofreu, anos depois dos acontecimentos com seu tio.

E essa falta de reação aconteceu em outros abusos que eu sofri. Eu travei, eu não conseguia reagir. Um dia eu acordei com o namorado de uma amiga minha me abusando e eu não soube reagir, apenas esperei ele sair para falar com ela que eu não tive coragem de fazer alguma coisa na hora”. 

Repreender e culpar a meninas foi algo presente na vida de Nicole. Ao contar de sua adolescência, como o seu corpo começou a se desenvolver, ela lembra das repressões sofridas no colégio de freiras onde estudou.

“Eu cresci peito muito rápido, aí me obrigaram a usar sutiã e me proibiram de usar short, ao invés de ensinar os meninos a respeitar as meninas. Eu acho que isso tem muito a ver com a nossa educação”. 

Ao falar dos resquícios emocionais e psicológicos do trauma que sofreu, Nicole aponta a importância de falar sobre o que aconteceu como um processo de ajuda na superação. 

“Quanto mais eu falo menos eu tenho esses resquícios de trauma pesado. Eu comecei minha vida sexual muito cedo, aos 13 anos, para entender o que era sexo. Porque eu era estuprada, eu não sabia o que era sexo. Mas às vezes no meio de uma relação sexual eu parava e chorava, eu não conseguia continuar. Eu nunca me masturbei, eu tenho muita trava de me tocar, de me sentir, de sentir prazer. Eu tirava a virgindade de todo mundo da minha idade, porque eu fiquei muito sexual e já esperava que as pessoas mais velhas fossem abusar de mim. Quando eu via algum professor flertando comigo eu era muito mais atirada para cima dele porque eu queria ter controle da situação, eu não queria me sentir sendo estuprada de novo. Mas o pensamento era de que eu estava me colocando no controle”.

Como uma forma de se proteger e antecipar qualquer abuso, Nicole foi obrigada a “amadurecer” e buscar uma independência bem cedo, e como não queria ir para a casa do tio acabou acompanhando uma amiga em seu trabalho de figurinista e acabou se interessando e se apaixonando por fotografia.

“Essa minha amiga Viviane viu minha rebeldia com a minha mãe e começou a falar comigo, perguntar o que estava acontecendo, falou comigo sobre buscar um psicólogo também. Eu ia com ela para os ensaios, ela fazia muito show, então eu comecei a tirar foto, ser fotógrafa e sair dali”. 

O processo para conseguir um psicólogo não veio facilmente, diante da resistência de sua mãe.

 

“Eu voltei para casa e falei para minha mãe que eu precisava de um psicólogo e ela disse que eu não precisava de um psicólogo. Eu lembro de falar exatamente assim – eu preciso e você vai me dar um psicólogo ou eu vou me matar. Foi aí que a Dr Silvana apareceu e salvou a minha vida”.

Das inúmeras violências vividas, a que mais criou cicatrizes em Nicole foi a falta de uma escuta de qualidade.

“Eu não me sentia ouvida, eu não achava um meio por onde eu pudesse fazer alguma coisa. Eu pedi ajuda para as pessoas ao meu redor e ninguém realmente me ajudou”.

 

A chegada de Viviane na vida de Nicole trouxe uma validação, um acolhimento, a sensação de se sentir ouvida.

 

“Eu estava entrando em guerra com a minha mãe e com todo mundo porque eu queria fazer alguma coisa e todo mundo queria que eu ficasse quieta”. 

Em depressão, a adolescente não conseguia estabelecer um relacionamento de confiança, não via motivação em estudar, entregava as provas em branco e começava a pensar que não existia motivo para viver e que tudo de ruim acontecia com ela. Foi aos 16 anos, quando começou a frequentar a psicóloga que Nicole mudou sua visão do que tinha acontecido”.

“Foi na psicóloga que eu comecei a mudar esse pensamento e comecei a entender que, de repente, tanta merda aconteceu comigo porque eu tenho força para continuar. Entender que muita gente não consegue se mexer, e que eu entendo essa dor, eu entendo que é muito difícil, mas ao mesmo tempo eu consigo, então vamos até a gente conseguir. Isso que me move até hoje”. 

Em contrapartida, a relação com a mãe não melhorou e o abuso psicológico e físico tomaram proporções desmedidas.

 

“Minha mãe já estava me torturando em casa, me deixava 3 dias sem comer. Eu levei a minha mãe no psicólogo 3 vezes para tentar resolver as coisas dela, mas até o psicólogo desistiu.

 

Cansada de tanta violência e abuso, Nicole buscou uma juíza e contou a sua situação, e a juíza como autoridade maior, ao saber de um caso de estupro de menor, é obrigada a agir.

 

“Eu achei que seria rápido, mas rápido coisa nenhuma, estou há 6 anos na justiça”.


 

Em guerra com sua mãe e sem apoio, Nicole buscou seu pai, depois de muitos anos sem contato. 

 

“Quando eu voltei a falar com meu pai ele me ajudou a entrar com processo contra todo mundo. Mas a guerra com a minha mãe apenas piorava. Ela estragou todas as minhas roupas, colocou merda de algum animal na minha cama, matou meu gato, arrancou a cabeça dele e colocou na porta do meu quarto. Ela virou o capeta porque voltei a falar com meu pai e resolvi processar todo mundo. Foi aí que eu pedi para o meu pai para vir morar em Nova York e ele me ajudou”. 

 

A relação com sua mãe foi cheia de traumas e problemas e a desconstrução da imagem materna de proteção e conforto foi algo que mexeu com as crenças de Nicole.

 

“Eu chamei a polícia uma vez, quando minha mãe estava destruindo a minha casa e morando comigo, e a polícia falou que nada poderia ser feito porque ela é minha mãe. Tem uma questão de poder ali, que também é um abuso muito grande. Eu tive amigos da minha mãe que me tocaram, eu tive muita gente me sexualizando a minha vida inteira. Tinha um professor que me abusou e eu contei para o diretor e para a pedagoga e eles falaram que nada podia ser feito, foi só quando eu contei para um ex namorado, que era filho de político e ameaçou vazar a informação na mídia que ele foi demitido. Eu tive um namorado que me trancou em uma academia e só me deixou sair depois que eu fizesse sexo com os amigos dele, homens mais velhos me convidando para a casa deles quando eu tinha 12, 13 anos. Tudo isso aconteceu”.

Aos 16 anos, Nicole começou a namorar, um rapaz que, assim como ela, foi abusado e lidava com várias questões familiares. Como foi o primeiro namorado que ela dividiu as questões pessoais de seu trauma, Nicole conta que ficou apegada emocionalmente ao namorado e acabaram ficando juntos por mais de 4 anos.

“Como ele bebia muito, uma vez ele me bateu por duas horas e eu fui parar no hospital porque meu cérebro inchou e eu tive que ficar em observação para ter certeza que não havia sequelas. Eu fiquei toda destruída e foi um momento muito intenso e quando eu cheguei em casa, era aniversário da minha mãe, lembro que ela simplesmente disse que estava indo viajar e disse tchau, não falou nada dos meus machucados”. 

 

Falar sobre seus traumas e compartilhar suas histórias fez com que o peso ficasse menor e que a sensação de estar “carregando um segredo” desaparecesse, por isso Nicole é a favor de falar e conversar sobre seus traumas.

 

 “Eu acho que eu prefiro ter passado por todo esse inferno e ter consciência que eu tenho o poder de conversar com outras mulheres e falar sobre isso e ajudar outras pessoas. Eu penso muito sobre isso, independente da situação que qualquer mulher, pessoa, estiver, existe algo a ser feito. Essa dor pode virar arte, fotografia”. 

 

Assim como outras mulheres em situação vulnerável e que precisam ir á delegacia, Nicole divide histórias frustrantes de suas interações com policiais no momento de pedir ajuda.

 

“Toda vez que fui na delegacia da mulher fui atendida por um homem, e o último que me atendeu perguntou qual era a minha religião e eu falei: 

 

- Eu acredito em alienígenas.

 

Que saco, cara. O que tem a religião com o estupro que eu sofri? Com a minha denúncia?

 

Uma mulher na delegacia perguntou se eu tinha perdido a virgindade com meu tio, mas não, eu fui estuprada pelo meu tio aos 8 anos de idade”.

Religiões à parte, uma das coisas que ajudava Nicole a se sentir melhor e servia como um esconderijo de seu abusador, era o banheiro.

 

“Quando eu era abusada eu me escondia no banheiro do meu tio, eu ia tomar banho e aí eu ficava lá. Ficava lá para nada acontecer, eu ficava lá o dia inteiro. Mas depois de um tempo ele começou a abrir a porta do banheiro e não adiantava mais”.

 

Ao chegar em Nova York e ter a sua primeira banheira, Nicole criou o projeto “My Bath Tub”.

 

“Eu comecei a trazer pessoas para a minha banheira, para o meu lugar de proteção e foi então que eu comecei a associar várias coisas: que a banheira é tipo uma coisa redonda, que tem uma semelhança com o útero, sabe?! Bem de acolhimento. E é um lugar pessoal, onde você toma banho, você se limpa, um lugar onde você pode fazer o que quiser e foi isso que eu fiz, eu abri a minha banheira para as pessoas. Eu contava a minha história, preparava banho para as pessoas, elas podiam posar ali, fazer o que quisessem, e por diversas vezes, as pessoas que estavam na minha banheira me contavam histórias de abuso que elas tinham sofrido. É muita gente assim”. 

 

Enxergar as pessoas pelo que elas são em sua banheira, despidas de vaidades e máscaras fez com que Nicole começasse um processo de cura interna de suas inseguranças, com seu corpo, com sua história, utilizando sempre a fotografia como terapia.

 

“Minha mãe tentou acabar com o meu projeto na banheira também, ela acabou com a água, chamou a polícia, disse que eu estava fazendo pornografia e eu a coloquei na justiça, e ganhei, porque você não pode chamar arte de pornografia. Eu contratei caminhão pipa duas vezes, pixei a minha casa toda falando que eu tinha sido estuprada. Eu fiz uma exibição no Brasil, foi a minha segunda, a primeira exibição foi nos EUA, eu tenho também um livro EU’s”.

 

Tudo que Nicole viveu teve um poder grande na transformação da sua autoimagem e como ela enxerga a sua história, hoje.

 

“Eu me vejo como uma mulher poderosíssima, eu vejo a minha história como sendo muito incrível, eu tenho muito orgulho da criança que eu fui, de ter entendido tão nova que aquilo estava errado e de ter chegado aonde eu cheguei depois de todas essas coisas que aconteceram. Eu valorizo a minha força e a minha história”. 

 

“Quando passamos por tantas coisas difíceis conseguimos nos entender melhor e também somos direcionadas a escutar o outro. Aprendemos a não falar tanto e escutar mais e acredito que, de alguma forma, isso foi muito positivo. No final das contas eu sou muito realizada, não me imagino em outro caminho”.

 

Durante o projeto “My Bath Tub” Nicole percebeu a preocupação que as pessoas tinham com o seu corpo, como iam aparecer e como as fotos eram digitais as pessoas solicitavam bastante photoshop.

 

“As pessoas queriam e esperavam uma fake imagem, foi então que, no Natal eu ganhei uma Polaroid e pensei em usar ela para fazer as fotos, porque não tem edição, você tira a foto e 5 minutos depois a gente revela a foto e eu fiquei fissurada nisso. Eu busco fazer uma des-sexualização do corpo feminino, porque mulheres acabam sendo produtos para homens e minhas fotos são para as meninas se gostarem, se sentirem poderosas que nem deusas. Eu comecei a perceber que as meninas eram sempre retratadas de uma forma vulnerável, olhando para baixo, tímidas, sem rosto, ainda mais em fotos peladas. Foi aí que eu comecei a fazer o contrário, pedindo para que elas olhassem para mim e colocando o foco no rosto”. 

 

Viver em Nova York trouxe possibilidades, modelos de todos os lugares, de todos os tamanhos. 

 

“A maioria das meninas que chega para mim é porque terminou o namoro ou está com problema de autoestima, sabe. Tem meninas que a primeira vez que botou o peito para fora foi comigo. Eu tenho amiga que fala que não fazia nem sexo sem tirar o sutiã e depois das fotos comigo começou. E eu acho que é muito importante você se sentir bonita. A Polaroid é muito importante porque não tem edição e você se gosta no momento, é uma surpresa para qualquer um”. 

 

A luta de Nicole para descobrir seu lugar no mundo trouxe uma missão de ajudar outras mulheres, que por algum motivo possam se sentir oprimidas ou infelizes, a encontrar a beleza real de seus corpos, sem a sexualização, mas com a naturalidade da beleza feminina e das curvas do corpo humano.

 

Nicole foi a fotógrafa responsável pelo ensaio fotográfico da Luiza Tojer que também compartilha de sua história aqui no projeto e é a co-criadora do projeto.

Nicole Batista é fotografa e mora na cidade de NYC.

Ela foi a responsável pelas fotos da Luiza Tojer nesta exibição. 

Fotografa de Polaroid, Nicole  realiza um trabalho incrível e empoderador em mulheres  através das suas imagens. 

Se você quiser conhecer um pouco mais sobre o trabalho dela , ver o projeto My Bath Tub aqui citado ou até mesmo contratá-la :

Site: https://nbatista.com

Instagram:  https://www.instagram.com/icolenob/

"Funded by a grant from the NYC & Company Foundation".

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"O amor tem a capacidade de transformar o mundo."

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© 2020 by 

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