Denisia days

O poder da persistência 

 

O caminho de Denisia começa em Salvador, Bahia e fala sobre um abuso que passa de geração em geração, criando impressões que permanecem.

Sua mãe nasceu no interior da Bahia e aos 17 anos já estava grávida, em um relacionamento com um homem muito mais velho – o pai de Denisia.

 

“Eu já nasci com essa visão de ter que guerrilhar e acabar com esses ciclos”.

 

Mas a história se repetiu, e aos 17 anos, Denisia estava grávida do seu namorado, que assim como a história de seus pais, era muito mais velho.

 

“Eu acreditava que ele era meu namoradinho, sabe. Mas a violência começou naquele momento, com a falta de apoio da minha família e com as acusações de que eu não sabia quem era o pai do meu filho. Foi isso que me motivou a sair de casa aos 19 anos”.

Sozinha, Denisia acabou indo morar com anarquistas, adeptos ao movimento punk, e foi nesse ambiente que ela conheceu mulheres feministas que, além de ajuda-lá com informações, acabaram incentivando-a a procurar a justiça e cobrar ajuda do pai de seu filho.

 

“Eu pedi ajuda para o meu irmão e ele acabou indo conversar com o pai do Rafael. Depois da conversa, meu irmão voltou falando que o pai do eu filho negou a paternidade e ele preferiu acreditar no cara e não em mim”. 

 

Depois de algum tempo vivendo na casa de amigos, Denisia encontrou o segundo caso de violência de sua vida.

 

“Eu conheci ele no bairro onde eu estava e ele se mostrou alguém muito interessante, trabalhava com arte, com desenho, trabalhava com criança, e eu estava em um lugar de vulnerabilidade, lutando pelos meus direitos e pelos direitos do meu filho na justiça, e esse cara me deu apoio. Ele era separado, tinha uma relação linda com a filha dele e era super legal com o meu filho”. 

 

Após um ano de relacionamento o comportamento de seu companheiro começou a mudar, principalmente com situações de ciúmes.

 

“Tivemos a primeira briga e ele me deu um empurrão e eu decidi sair de casa e fui morar com minhas amigas. Ele ficou atrás de mim por um tempo, insistiu bastante, e eu reatei o relacionamento, mas continuei morando com as minhas amigas.”

Em meio a essa situação complexa no relacionamento, Denisia descobriu que estava grávida, e por conta da instabilidade que enfrentava com o parceiro, tomou uma difícil decisão.

 

“Eu fiz um aborto. Eu fiquei muito mal, porque eu não queria, mas eu acho que tinha que acontecer. Mas quatro meses depois do aborto acabei engravidando da minha filha”. 

Diante da transformação do companheiro, ela acabou decidindo voltar para casa e a relação ficou tranquila por 7 meses. 

 

“Depois disso ele se transformou, e eu ainda estava grávida. Foi então que eu comecei a ir para a delegacia.”

 

Grávida, sem ter para onde ir, Denisia decidiu buscar a ajuda dos pais.

 

“Eu falei para eles que aquele homem tinha me batido e a resposta que recebi do meu pai foi:

 

- Eu sei quem é você, eu sei que você também provoca.”

 

Sem o apoio da família, Denisia viu a situação piorar em um dos momentos mais assustadores de sua vida.

 

“Ele botou o revólver na minha cabeça pela primeira vez. E depois disso eu passei a noite praticamente na rua, grávida e eu decidi ir para a delegacia”. 

 

Na delegacia não houve um acolhimento, a história foi tratada como briga de marido e mulher e que os policiais não se envolveriam. Foi uma “alma bendita” que a direcionou para a delegacia da mulher.

“Foram cinco anos indo na delegacia. Aconteceu de eu ir duas vezes na semana. E assim, eu percebi que eu tinha que me arrumar para ir à delegacia, porque se eu chegasse desesperada, piorava a minha situação”.  

Denisia participava de grupos de mulheres, na capoeira, grupos feministas e foi em uma conversa desses grupos que ela ouviu falar do Centro de Referência de Atenção à Mulher Loreta Valadares.

 

“Eu disse que já estava cansada de ir à delegacia tantas vezes e não ver a coisa andar, não ver nada acontecendo, e fazendo tudo sozinha. Quando me falaram do centro, eu descobri que lá tinha advogado, psicólogo e uma rede de apoio que eu nunca tive na vida”.

 

Foi nesse centro que Denisia conheceu a advogada que lhe deu o seguinte conselho: quanto mais boletins de ocorrência você fizer, melhor.

 

“Como eu estava sozinha e não tinha para onde ir com a minha filha, eu decidi continuar ali, enfrentando aquele cara e tentando fazer ele me respeitar. Um dia, eu lembro de estar andando pelo Pelourinho, e me veio a intuição de voltar para a casa, e quando eu cheguei lá, ele estava usando cocaína com outro cara, e minha filha estava em casa, eu fiquei louca. Foi a segunda vez que ele pegou o revólver e disse que iria me matar naquele momento”.

 

Era o momento de sair de casa. Sem ter para onde ir e com a filha pequena, sua filha voltou a ficar na casa de seus amigos, mudando de casa em casa, e sofrendo ameaças.

“Eu sofri ameaça até o dia que o cara morreu.”

Dentre tantas violências vividas, Denisia ressalta a falta de empatia e ajuda dentro das delegacias e discriminação sofrida por ser uma mulher negra.

 

“Eu já cheguei na delegacia gritando, exigindo proteção, contando da agressão e as pessoas me perguntando o que eu tinha feito? Perguntando isso para a vítima. Eu entendi que eu tinha que chegar arrumada, bem vestida, falando baixo e pausadamente, falando sobre a minha advogada, para conseguir ter um atendimento melhor. Porque a gente que é preto já é criado assim: ande sempre limpo, arrumado, para não ser confundido, a realidade é que o negro já é marginalizado sem motivos. 

A mulher branca quando chega na delegacia, ou chega com alguém, um advogado, o tratamento é diferente, agora a mulher negra que chega, como no meu caso, descabelada, com um murro no olho, a cara quebrada, chorando, a reação é: senta ali e espera”. 

 

Segundo Denisia é por isso que a mulher acaba desistindo de buscar ajuda.

 

“A minha sorte é que eu trabalho com terapia, trabalho com o que amo e acredito na vida, porque é por isso que a mulher desiste. Depois de tantos boletins de ocorrência meu caso nunca chegou ao juiz, eu nunca tive uma audiência pela violência causada em mim. Isso só aconteceu depois do que ele fez com a minha filha”. 

 

Para Denisia o empoderamento não é apenas passar a informação, mas também divulgar o trabalho, falar de mim, expor quem precisa ser exposto e exaltar aqueles que merecem. 

 

“Eu não sou coitadinha, não sou vítima. Foram escolhas que eu fiz, que eu não soube observar. Não é só fazer cestinha e dar a doação, mas é ensinar a pescar. Eu não quero o peixe".

 

Com uma ordem de restrição de 100m, fora de casa, Denisia teve que arranjar uma forma de sobreviver.

 

“No começo eu vendia sachê dentro do ônibus, recitava poesia, vendi chapéu na praia. Eu me virei, eu nunca quis ser a coitadinha, eu não quero dinheiro de um e coisas dos outros”.

 

Por muitos anos Denisia viveu perturbada pelo pai de sua filha , mesmo estando em outro relacionamento. Um mês após a audiência da violência cometida por aquele homem em sua filha ( pois nunca foi chamado por todas as violências que cometeu com Denisia, ele reagiu a um assalto e morreu".

 

“Tudo que aconteceu na minha vida fez com que eu chegasse aqui. Eu me identifiquei com a massagem, comecei com a alimentação natural e estudei sobre essas coisas, e então eu coloquei como prioridade o autocuidado”.

 

Hoje, com 44 anos, 4 filhos,  Denisia trabalha com massagem Ayurveda, yoga e tem formação em Barras de Access.

“Eu me vejo como uma pessoa muito corajosa, que não aceita menos e eu realmente sou forte. Eu tenho meus objetivos, eu posso me suprir, eu posso viver a minha vida só, eu posso gozar sozinha, eu conheço meu corpo, me amo pra caralho. Eu posso fazer qualquer coisa”.

 

Um dos grandes objetivos da vida de Denisia é se tornar um grande exemplo para suas filhas, para que elas se tornem mulheres fortes e determinadas, como sua mãe.

 

“Eu não tenho medo ou vergonha de falar sobre esse assunto, não é um trauma que eu sofro ou dói quando eu vou para esse assunto porque eu tive que reagir no exato momento. Eu só fiz crescer depois que sai da casa do cara e eu ouvia ele falando o contrário, que eu não iria sobreviver sozinha”. 

 

Para Denisia é de extrema importância que as mulheres se ajudem, que haja sororidade, onde mulheres que observam suas amigas em relacionamentos abusivos, sofrendo violência, tenham informações, saibam como acolher, até abrir a porta de sua casa se preciso for. É preciso, antes de mais nada, saber o que é violência e como agir diante de uma situação dessas.

 

Mas acima de qualquer coisa, é importante não desistir, ser resiliente e continuar acreditando nos seus objetivos e na sua força.

 

“Eu acho muito bom que eu não perdi a capacidade de amar. Porque, pelo que eu passei, eu poderia não querer saber de homem, eu poderia ter me tornado uma mulher amarga, traumatizada, mas eu continuei acreditando no amor.”

Denisia reside na cidade de Nova York e hoje trabalha com:

-massagem yoga ayurvédica ;

-reiki;

-barras de access; 

-cromoterapia; 

-cristal sounds  & meditação;

-tethaheling.

Caso tenham interesse em contratar os serviços que ela oferece entre em contato:
E-mail: denisialimadays@gmail.com

       https://www.instagram.com/denisialimadays/

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