aline faiwichow Estefam

O PODER DA COMUNIDADE

Aline Estefam vêm de uma família árabe muito tradicional, fechada e “de alguma forma machista”, onde o homem é muito mais importante do que a mulher. Isso fez com que ela crescesse em uma bolha, presa e sem poder ser ela mesma.

 

Aos 19 anos Aline foi enviada pelos pais para fazer um intercâmbio na Espanha.

 

“Eu não sentia que eu estava pronta para ir, só que meu irmão, que é 2 anos mais velho, resolveu ir para a França estudar francês e então meu pai decidiu me mandar para Espanha, para fazer um curso de espanhol em uma escola em Valência.  Eu não fui obrigada a ir sabe? Mas não foi uma vontade que surgiu de mim”.

O momento da viagem para a Espanha foi um momento de se conhecer, se encontrar, viver experiências diferentes e foi isso que Aline fez. Encontrou muitos amigos na escola onde estudava e com eles saia para a balada, e se divertia, em uma rotina normal de jovens de sua idade, até um certo dia.

 

“Um dia em uma balada com meus colegas, eu bebi normal, eu não lembro de ter bebido mais que o normal, mais do que a minha resistência, mas a partir de um certo momento dessa noite eu não lembro de mais nada do que aconteceu, eu tenho apenas flashes. E eu gostaria de não ter esses flashes sabe, são flashes de agressão, de violência. A sensação que me dá muito forte é de que eu não queria estar ali, que eu queria ir embora. Eu acordei no dia seguinte com milhares de mensagens e ligações no meu celular, porque eu estava hospedada na casa de uma senhora que estava morrendo de preocupação porque eu simplesmente não fui para casa, não avisei nada. Eu estava machucada, não sabia onde estava, mas estava sozinha.

 

“Não tinha ninguém naquela casa, então eu peguei as minhas coisas e fui embora, desesperada, tremendo, e foi muito traumático para mim, eu era virgem, eu estava sangrando”. 

Apesar de estar com 2, 3 amigos, Aline não conseguiu obter nenhuma informação relevante sobre o que aconteceu naquela noite. Um amigo brasileiro que estava lá garantiu que ela estava com um menino a noite mas que, segundo ele, parecia estar tudo bem.

 

“Para mim o não saber, não ter essa memória, dói muito. Uma vez fui a um psicólogo que, na minha opinião, foi muito insensível e ele falou que eu não sabia se tinha sido abusada de verdade ou não. Mas as marcas no meu corpo falam muito, entende?”.

 

Apesar de não saber ao certo o que tinha acontecido, Aline sabia que precisava buscar um médico, fazer alguma coisa, apesar de não lembrar ao certo o que aconteceu.

 

“Eu acho que eu me protejo para não lembrar sabe. Eu lembro que foi uma experiência muito difícil, de ter que falar no exterior o que aconteceu. Eu lembro da dificuldade mas não me lembro dos detalhes de como foi a conversa com o médico. E que o não lembrar é uma forma de proteção porque eu não consigo lidar e entender”. 

Para a Aline a falta de memória teve um grande peso, porque não lembrar do rosto de seu abusador significava não poder se proteger.

 

“Eu até imaginei que poderia ser uma das pessoas que estava na minha sala e quando eu voltei para a escola eu tinha as desconfianças, achava que poderia ser um cara, mas eu não conseguia lembrar o suficiente para falar ou fazer nada.

Depois que isso aconteceu eu passei o resto da viagem chorando, liguei para os meus pais e disse que queria ir embora, que não queria mais ficar lá, e eles falaram que eu tinha que ser forte, que eu tinha que ficar lá, que eu tinha que aguentar e aquilo ficou na minha cabeça: eu tenho que ser forte, eu tenho que aguentar”.

Foi então que Aline decidiu por inventar uma história para contar para as pessoas e a nova versão do acontecimento não era nem um pouco próxima da realidade.

 

“Eu tentei falar com a minha mãe, até porque ela percebeu, e eu falei que tinha perdido a virgindade, só que eu não falei os termos. Então ela me perguntou se eu estava apaixonada, e eu me senti muito pressionada e não consegui falar o que aconteceu, então eu menti para ela e disse que estava apaixonada e acabei inventando um personagem que teria sido a pessoa pela qual me apaixonei”.

 

Inventando essa realidade alternativa Aline imaginou que seria mais fácil lidar com aquele momento traumático, mas a verdade sempre voltava.

 

“Eu me sentia horrível e tinha crises de choro todas as noites. Até hoje eu tenho isso, de ter um momento de pânico, um medo muito grande, que dá vontade de sair correndo e ir para o quarto ficar com meu namorado. Eu não conseguia contar para as pessoas e mantive esse segredo até 2018”.

 

Ao receber um convite para uma palestra na Bolívia, a ideia de viajar sozinha causou pânico e foi em uma situação no avião que Aline acabou se desestabilizando.

“Eu estava sentada no meu assento, quando um desconhecido passou a mão na minha cabeça, tocou o meu cabelo e isso me desestabilizou para caramba. Os 3 dias que eu passei lá foram horríveis e eu estava sozinha, foi aí que eu contei para um amigo meu e contei para o meu namorado.

 Foi aí que eu entendi como tirar um pouco o peso porque é muito difícil carregar isso sozinha, difícil e desnecessário, então a partir daí eu comecei a contar para as pessoas, mas eu não contei para muitas pessoas. 

Eu ainda quero fazer alguma coisa com isso, por isso fiquei muito feliz em participar do seu projeto”.

 

O movimento de falar, se abrir e ser acolhida trouxe coragem para Aline buscar novamente sua mãe e seu pai.

 

“Para o meu pai eu enviei uma mensagem no WhatsApp, mas depois eu apaguei porque fiquei com medo da reação dele, mas ele viu antes de eu apagar e me chamou para conversar e foi muito bom. Foi difícil e eu me senti desconfortável, mas depois da conversa eu sinto que a nossa relação mudou muito, ele finalmente me conheceu, sabe. Foi um dos melhores dias da minha vida.

A minha mãe chorou, me abraçou, pediu desculpas por não ter dado mais suporte no dia que eu contei que estava mal na Espanha e disse que se ela soubesse ela teria agido diferente”. 

 

O trauma, além de dores emocionais, trouxe uma dificuldade de se relacionar romanticamente e um o medo de gostar e se envolver, mas depois de um tempo, Aline começou a namorar com um rapaz que trabalhava no mesmo lugar que ela.

“Eu acho que ele já estava interessado em mim, então ele começou a aparecer em todos os lugares que eu estava e eu comecei a achar que eram sinais do universo, aí ele me chamou para sair e eu fui. 

Era tudo lindo né, almoçávamos juntos, fazíamos tudo junto, era tudo perfeito. Eu não percebi como o relacionamento era abusivo, porque eu não tinha padrões de namoro normal, do que era um relacionamento saudável. Eu achava que as coisas que aconteciam era o que acontecia em todos os relacionamentos. Como por exemplo a parte sexual: ele falava que sexo era para o homem, que ele tinha que ter o prazer e eu não, se eu tivesse era lucro”. 

 

Os sinais eram claros: a resistência em conviver com pessoas da vida de Aline, como amigos e familiares e chantagens emocionais como: 

 

“- Se você for significa que você não gosta de mim, então você escolhe se vai ou fica comigo”.

 

Como o namorado morava sozinho, Aline acabou se isolando e deixando de lado sua vida social. 

 

“Depois de 3 meses de relacionamento eu percebi que estava completamente presa, então eu não saia com mais ninguém, só com ele. Aí começaram os comportamentos agressivos, ele não respeitando o meu ciclo de atividades, então eu tinha que ir dormir a hora que ele quisesse, eu não tinha uma escolha”.

 

Os acontecimentos começavam a ficar mais graves.

 

“Eu lembro que uma vez eu acordei com muito calor, no meio da noite, e fui ao banheiro passar uma água no rosto e ele acordou bravo, falando que eu estava atrapalhando o sono dele. Ele abriu o chuveiro, com água gelada e me jogou de pijama embaixo da água e me forçou a ficar ali.

 E na minha cabeça aquilo era normal, era um direito do namorado fazer isso com a namorada”.

 

O diálogo não era presente no relacionamento e Aline não conseguia dividir coisas importantes de sua vida, como por exemplo a questão do abuso que ela havia sofrido.

 

“Eu tentei uma vez contar para ele o que tinha acontecido, mas ele nunca dava abertura, ele falava assim: lá vem você com essas histórias aí, então ele nunca soube”.

 

O medo era um fator decisivo para Aline e acabou fazendo com que, mesmo tendo a certeza de que ela não queria estar naquele relacionamento,  ela não conseguisse terminar o relacionamento. 

“Um dia eu queria sair e ele não queria, então começamos a discutir e ele me deu um soco na perna, que ficou roxo, e eu reagi, dei um tapa nele e ele ameaçou ir na delegacia falando que eu estava sendo violenta e agredindo ele. O que foi totalmente insano”. 

Foi em uma viagem para Holanda que Aline com o namorado, para visitar seu irmão, que Aline decidiu colocar um fim no relacionamento.

 

“Esse meu irmão sempre foi o meu melhor amigo, então foi muito difícil para mim, porque eu tinha um namorado que era possessivo, mas meu irmão foi percebendo a agressividade, o tom que ele falava comigo, as coisas que aconteciam. E eu defendia meu ex-namorado, falava que ele estava competindo com meu irmão mas que a gente se dava bem.

Até um dia que meu irmão disse que não aguentava mais, que era muito difícil me ver com um cara que me desrespeitava assim e ele ficou muito assustado e ele me disse: ou eu ou ele. ”.

 

Após uma série de situações o ex-namorado fez com que a viagem se tornasse insuportável e Aline decidiu terminar o relacionamento, quando voltassem ao Brasil, mas uma situação no aeroporto, na hora do embarque, antecipou os planos de Aline.

 

“A gente foi fazer o check in no aeroporto e eu fiz para uma pessoa só, sem perceber e ele perdeu a paciência, me chamou de egoísta, de imbecil e me empurrou de novo e meu irmão viu e partiu para cima dele. Eu afastei os dois e pedi calma para o meu irmão.  Naquele momento na minha cabeça eu tinha já tinha terminado a relação, mas ele olhou pra mim e falou: acabou acabou.

 Mas durante as 12 horas de vôo ele ficou insistindo para que voltássemos. 

De volta ao Brasil eu tinha medo de encontrar com ele e ele ser agressivo, então eu mudei minha rotina, fazia horários alternativos para não encontrá-lo, até que um dia eu mandei uma mensagem para ele no facebook falando que não dava mais”. 

 

Depois do fim do relacionamento, Aline foi para Paraty com uma amiga e no momento em que sentiu a liberdade, decidiu que queria a leveza de uma vida sem brigas e abusos.

 

“Eu comecei a namorar com ele porque eu achei que eu conseguia lidar com isso, e foi verdade, eu acho que encontrei o que eu conseguia lidar. Eu não tinha conhecimento de mim mesma, sabe, eu não achava que eu merecia ter uma pessoa que gostava de mim, então foi um relacionamento muito abusivo também. 

Mas depois que eu terminei foi muito gostoso, até fiz uma tatuagem para celebrar a minha liberdade: fiz uma pena com os passarinhos voando. Nunca tinha me sentido tão livre, nunca fui tão feliz, me empoderei e minha auto estima melhorou muito. 

Ele dizia que eu não tinha rosto bonito para cortar o cabelo curtinho e assim que terminei fui lá e fiz, e amei”. 

Aline também tem uma outra tatuagem  que fez aos 18 anos que significa confiança e Árabe e tem muito significado pra ela também.

Aline trabalhava no setor público no Brasil e depois da frustração de não conseguir fazer as mudanças positivas que gostaria na comunidade, veio para Nova York em busca de conhecimento e experiência para conseguir influenciar e gerar mais mudanças na nossa comunidade. Hoje fazendo mestrado em Nova York, Aline aprende cada vez mais sobre como tudo que aconteceu na sua vida foi necessário para que ela chegasse aqui, pronta para ajudar os outros.

 

“Eu me sinto muito madura por causa das experiências que eu tive e como mulher, cada vez mais eu descubro quem eu sou. Eu sou uma pessoa que quebra padrões, tudo que aconteceu na minha vida me fizeram quebrar os padrões familiares, de uma família tradicional e me tornaram essa pessoa que transforma as coisas em coisas positivas”.

 

Aline acredita que passou por todas as dores para que outras mulheres fossem vistas, porque cada mulher faz parte da nossa história e quanto mais nos ouvirmos e nos ajudarmos, mais fortes seremos.

As experiências da Aline moldaram quem ela é pessoal e profissionalmente, e hoje ela se dedica a empoderar comunidades e a garantir que todos tenham voz nas decisões públicas. 


 

Contato: aestefam@gmail.com 

 

"Funded by a grant from the NYC & Company Foundation".

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"O amor tem a capacidade de transformar o mundo."

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